Um poema das antiga, ou nem tanto. Mas quase.
Inspirei-me por conta dos saraus da Academia de Letras, promovida pelo grande Paulo Monteiro,Presidente do sodalício (palavra mais barroca essa, mas enfim...).
Querem bomba, lá vai:
TRAVESSSIA
Talvez
portador de um segredo
talvez um desgraçado.
Assim
enxergo a vida
que me escorre
pelas mãos.
Talvez um bem amado.
Talvez...
Tudo é incerto
quando o caminho
se faz
enquanto se o está a caminhar.
Quem saberá dizer
onde iremos dar
após tantos anos
de peregrinação?
A vida é isso:
um pouco certeza
um pouco ilusão.
Mas caminhamos mesmo assim.
É o que nos cabe
seres dotados da chama,
da chama que tem de se levar
a bom termo
sem a apagar
antes do tempo certo
de a entregar
ao barqueiro
que a outra margem
há de nos levar.
Que seja uma boa travessia
quem a faz agora
quem por certo
- nada mais certo do que isso -
um dia
a fará.
Sunday, November 15, 2009
Wednesday, September 23, 2009
Um Poema
Um poema, para desanuviar o ambiente.
IRONIA DO VERDE
Chaminé ao longe
de fábrica recém instalada
expele fumo
que se mistura com as nuvens do céu.
Céu baixo de dias de chuva.
Tocam-se por obra
de dupla ação:
da chaminé que sobe até quase o céu,
do céu que abaixa até quase ao chão
numa cópula espúria e degradante
do homem com a natureza
que em seu útero
expele
lixo.
(Verdes
são as paredes
da indústria poluidora.)
IRONIA DO VERDE
Chaminé ao longe
de fábrica recém instalada
expele fumo
que se mistura com as nuvens do céu.
Céu baixo de dias de chuva.
Tocam-se por obra
de dupla ação:
da chaminé que sobe até quase o céu,
do céu que abaixa até quase ao chão
numa cópula espúria e degradante
do homem com a natureza
que em seu útero
expele
lixo.
(Verdes
são as paredes
da indústria poluidora.)
Wednesday, September 09, 2009
Novo
Vou tentar salvar minha reputação, ou o que resta dela. Depois de ler um conto de um amigo meu aqui de PF ainda estou sob o efeito da admiração e da inveja. Por que não escrevo assim? é a primeira reação que se tem quando se depara com um texto dessa qualidade. Lembro que a última vez que me fiz essa pergunta foi quando descobri os contos de Daniel Galera em Dentes Guardados (estão na internet em pdf e podem ser baixados. Perguntem ao google). Por isso, para não dizer que estou de todo perdido, pelo menos em questão de prosa, vou tentar salvar minha reputação com o conto abaixo. Vejam se eu tenho alguma chance. Quando esse cara surgir - Gustavo Pimentel, guardem esse nome - vocês entenderão o que eu estou dizendo. Se se confirmar, no mínimo estamos diante de um novo Galera.
De minha parte faço votos que sim. Em nome da Literatura. A vaidade pessoal que se foda.
Um abraço!
Os Jornais
Uma ausência de meses foi responsável por aquela pilha de jornais deixada na portaria ao longo dos dias em que ele permaneceu fora:
-São do senhor, seu Maurício – disse-lhe com resignação o porteiro que já não sabia onde colocar tanto papel.
Teve de fazer mais de uma viagem elevador acima carregado dos cadernos de cultura, esporte, saúde, tv, lazer, turismo, economia, carros e motos, uns saindo dos outros, as datas se misturando, o constrangedor de ter atulhado o elevador no momento em que os vizinhos se viam impedidos de usá-lo pelo estranho regresso de Maurício.
A um canto da sala agora aquela parafernália parecia o ameaçar: “decifra-me ou te devora”. Aquela massa de caracteres e papéis era a evidência de tudo o que tinha se passado na sua ausência. Se pôr ao corrente dos fatos desses seis meses de exílio voluntário era o mínimo que ele poderia fazer, por hora, para retomar a sua vida. Antes, porém, precisava de umas 6 horas de sono para se recuperar do esforço conjunto da viagem de regresso do campo e do trabalho inesperado de carregar os jornais até em casa.
À noite teve pesadelos que tornaram seu sono difícil, alguns com alusões a sua experiência frustrada de colono sem-terra e outras absolutamente sem sentido. Ao menos aparentemente, pois dessa região nebulosa dos sonhos talvez jamais tenhamos respostas definitivas. De qualquer modo, a sensação de opressão no peito e a impressão de estar sendo sufocado por uma criatura sem rosto, mas de aspecto ameaçador, havia lhe impedir de ter o sono reparador de que precisava.
Acordou cansado.
Tinha pela frente um projeto de relativa envergadura – retomar a sua vida como jornalista -, mas se sentia pouco motivado. Contudo, parecia-lhe que a leitura dos jornais poderia ajudá-lo. Mal começou, sentiu que estava no caminho certo.
Nos dias que se seguiram os amigos ligaram querendo saber notícias: “como é que chega e não avisa?”.
Helena também havia o procurado.
No entanto, todos receberam respostas evasivas e comentários sucintos de sua frustrada experiência para entender um pouco mais do movimento dos sem-terra, fazendo-se passar por um. Seu objetivo era escrever um livro sobre o assunto e, para isso, entendia que tinha de viver essa experiência.
Deixou para trás a redação do jornal, seu relacionamento com Helena e a sua vida na cidade grande.
Se infiltrou num acampamento de beira de estrada e aos poucos foi ganhando a confiança dos líderes do movimento. A princípio não revelou sua verdadeira identidade. Mas ao poucos foi difícil esconder suas reais intenções. Aquele negócio de fazer constantes notas de todos os movimentos do grupo e das reuniões levantaram suspeitas.
Por fim teve que contar sua verdadeira história.
Quando eles descobriram que Maurício não era o professor desempregado, decepcionado com a vida na cidade que ele lhes havia dito que era, até acharam interessante a sua explicação para a mentira: ele não queria que eles perdessem a naturalidade diante de um jornalista. Mas com o passar dos dias e após muitos debates acalorados entre os líderes e uma comissão do MST vinda de fora, foi difícil continuar no acampamento. Já não era mais tratado com a naturalidade de antes e muitas vezes era excluído das reuniões e decisões mais importantes. Passou a se sentir um incômodo que eles não sabiam bem como tratar: um aliado ou uma ameaça? Por isso resolveu abandonar o acampamento.
Tentou uma infiltração em outro grupo, mas um visita inesperada de alguns líderes do primeiro determinou novamente o seu desmascaramento. E desta vez foi tratado com bem menos cortesia que da outra. Simplesmente pediram que se retirasse do movimento.
Andou vagando pelo interior do Estado algum tempo, irresoluto diante da perspectiva de retomar sua vida como jornalista, assumindo o fracasso do seu projeto. Acabou adquirindo um pequeno sítio com as economias que tinha juntado para essa aventura, a ver se com isso fosse mais convincente em seu disfarce como colono. Mas com o passar dos dias viu que não tinha nada com aquilo e acabou decidindo voltar para casa. Quem sabe se o material que tinha juntado naqueles poucos meses de acampado não seria suficiente para escrever o livro?
Só então se deu conta, ao chegar em casa, que tinha esquecido de cancelar a assinatura do jornal, e o porteiro, como bom homem que era, tinha-os guardado para quando “seu” Mauricio voltasse .
Trouxe-os para casa ainda sem saber o que fazer com aquela montanha de papel a lhe pesar na consciência. Ela era evidência da sua desatualização. Se pretendia voltar ao mercado de trabalho tinha que se inteirar do que havia passado no mundo na sua ausência.
A primeira idéia, portanto, era ler tudo aquilo.
Com o passar dos dias, no entanto,foi descobrindo que esta não seria uma tarefa fácil. Eram muitos dados, fatos, conchavos, crimes, guerras e escândalos a serem assimilados e era preciso entender o encadeamento dos mesmos. Tinha que ler os jornais na ordem certa, e os novos números continuavam a chegar todos os dias.
Aos poucos o apartamento virou uma bagunça, com jornal pra tudo quanto é lado. Uma pilha tinha se formado com jornais por serem lido, mas aqueles que já tinham sido permaneciam por ali, pois sempre havia a possibilidade de ter deixado escapar alguma coisa. A desordem começava a reinar à medida que ele fazia progressos e os jornais, antes inofensivas criaturas de papel e tinta, pareciam agora adquirir vida ao se enrolarem em suas pernas quando ele caminhava entre eles.
Sem que ele percebesse, os jornais começavam a dominá-lo.
Dias e noites esteve às voltas com eles, esquecidos dos amigos, das mulheres, de Helena, da vida lá fora; os jornais antigos mais importantes que os novos, os lidos a lhe espreitarem para uma nova leitura, a absoluta absorção da sua atenção tentando coordenar tudo aquilo que se tinha pressa por apreender; os números novos batendo à porta e envelhecendo como os demais, para seu desespero que não conseguia retardar a marcha do tempo.
Ao cabo de dois meses sua barba havia crescido, tinha emagrecido 10 quilos e já não saía de casa nem para comprar comida.
Soterrado sob uma montanha de papel não se sentia melhor do que no começo. A tão acalentada idéia de se pôr ao corrente dos fatos parecia, ao contrário, tê-lo afastado da realidade, ameaçando sua sanidade. Preso nesta contradição só a ousadia de um ato de loucura poderia livrá-lo dessa situação.
No limiar desse caminho sem volta, a vida falou mais alto.
Num rompante, deu seu grito de liberdade. Com gestos bruscos e desajeitados, começou a catar os volumes espalhados, levantando nuvens de poeira que quase o sufocavam. Se parava, então, era apenas para retomar o fôlego, pois não podia dar chance que a dúvida enfraquecesse sua decisão. Os jornais poderiam reassumir o controle.
Aos poucos juntou uma enorme pilha de papeis amarrotados num canto da sala e teria posto fogo neles ali mesmo se não fosse um resto de bom senso a detê-lo antes deste ato final de loucura.
Pediu ajuda ao porteiro para carregar elevador abaixo aquele tralha. O pobre homem quase não o reconheceu naquela ato de semi-demência, mas obedeceu sem pestanejar. A disciplina de homem do povo o impedia de questionar.
Fizeram duas viagens elevador abaixo, carregando os volumes dos jornais agora resignados a sua condição de criatura sem vida, enquanto Maurício, esfuzeante, corria como uma criança que tivesse ganhado um brinquedo novo: sua liberdade!
“Os jornais que se fodam” – pensava sentindo-se mais senhor de si. E uma certeza louca lhe soprava que ele tinha feito a escolha certa, ainda que aquilo contrariasse a sua natureza.
“A minha natureza que se foda” pensava imediatamente, desviando o pensamento da vertigem que sentia ao dar as costas ao mundo do conhecimento.
“O mundo do conhecimento que se foda” arrematava de uma vez Maurício, desesperadamente convicto de sua resolução, deixando às vezes escapar exclamações e risadas baixas, para espanto do zelador que o ajudava sem entender o que estava acontecendo.
Ao fim o apartamento vazio era de uma desolação só. Ao retornar, Maurício, percebeu isso e sentiu que não podia ficar ali nem mais um minuto que mais parecia uma tumba que um lugar para se viver. Precisava sair, reconquistar a vida que os jornais tinham-lhe tirado nesses dois meses. Ir às ruas, ao encontro das pessoas que ele tinha ignorado em nome do que mesmo?
Nem ele mais sabia.
Mas de uma coisa estava certo: precisava celebrar, comer uma bela refeição, encher a cara, sentir-se homem outra vez, procurar Helena quem sabe, mas sobretudo viver, viver a louca vida que não exige razão nem condição para ser vivida.
Fim!
De minha parte faço votos que sim. Em nome da Literatura. A vaidade pessoal que se foda.
Um abraço!
Os Jornais
Uma ausência de meses foi responsável por aquela pilha de jornais deixada na portaria ao longo dos dias em que ele permaneceu fora:
-São do senhor, seu Maurício – disse-lhe com resignação o porteiro que já não sabia onde colocar tanto papel.
Teve de fazer mais de uma viagem elevador acima carregado dos cadernos de cultura, esporte, saúde, tv, lazer, turismo, economia, carros e motos, uns saindo dos outros, as datas se misturando, o constrangedor de ter atulhado o elevador no momento em que os vizinhos se viam impedidos de usá-lo pelo estranho regresso de Maurício.
A um canto da sala agora aquela parafernália parecia o ameaçar: “decifra-me ou te devora”. Aquela massa de caracteres e papéis era a evidência de tudo o que tinha se passado na sua ausência. Se pôr ao corrente dos fatos desses seis meses de exílio voluntário era o mínimo que ele poderia fazer, por hora, para retomar a sua vida. Antes, porém, precisava de umas 6 horas de sono para se recuperar do esforço conjunto da viagem de regresso do campo e do trabalho inesperado de carregar os jornais até em casa.
À noite teve pesadelos que tornaram seu sono difícil, alguns com alusões a sua experiência frustrada de colono sem-terra e outras absolutamente sem sentido. Ao menos aparentemente, pois dessa região nebulosa dos sonhos talvez jamais tenhamos respostas definitivas. De qualquer modo, a sensação de opressão no peito e a impressão de estar sendo sufocado por uma criatura sem rosto, mas de aspecto ameaçador, havia lhe impedir de ter o sono reparador de que precisava.
Acordou cansado.
Tinha pela frente um projeto de relativa envergadura – retomar a sua vida como jornalista -, mas se sentia pouco motivado. Contudo, parecia-lhe que a leitura dos jornais poderia ajudá-lo. Mal começou, sentiu que estava no caminho certo.
Nos dias que se seguiram os amigos ligaram querendo saber notícias: “como é que chega e não avisa?”.
Helena também havia o procurado.
No entanto, todos receberam respostas evasivas e comentários sucintos de sua frustrada experiência para entender um pouco mais do movimento dos sem-terra, fazendo-se passar por um. Seu objetivo era escrever um livro sobre o assunto e, para isso, entendia que tinha de viver essa experiência.
Deixou para trás a redação do jornal, seu relacionamento com Helena e a sua vida na cidade grande.
Se infiltrou num acampamento de beira de estrada e aos poucos foi ganhando a confiança dos líderes do movimento. A princípio não revelou sua verdadeira identidade. Mas ao poucos foi difícil esconder suas reais intenções. Aquele negócio de fazer constantes notas de todos os movimentos do grupo e das reuniões levantaram suspeitas.
Por fim teve que contar sua verdadeira história.
Quando eles descobriram que Maurício não era o professor desempregado, decepcionado com a vida na cidade que ele lhes havia dito que era, até acharam interessante a sua explicação para a mentira: ele não queria que eles perdessem a naturalidade diante de um jornalista. Mas com o passar dos dias e após muitos debates acalorados entre os líderes e uma comissão do MST vinda de fora, foi difícil continuar no acampamento. Já não era mais tratado com a naturalidade de antes e muitas vezes era excluído das reuniões e decisões mais importantes. Passou a se sentir um incômodo que eles não sabiam bem como tratar: um aliado ou uma ameaça? Por isso resolveu abandonar o acampamento.
Tentou uma infiltração em outro grupo, mas um visita inesperada de alguns líderes do primeiro determinou novamente o seu desmascaramento. E desta vez foi tratado com bem menos cortesia que da outra. Simplesmente pediram que se retirasse do movimento.
Andou vagando pelo interior do Estado algum tempo, irresoluto diante da perspectiva de retomar sua vida como jornalista, assumindo o fracasso do seu projeto. Acabou adquirindo um pequeno sítio com as economias que tinha juntado para essa aventura, a ver se com isso fosse mais convincente em seu disfarce como colono. Mas com o passar dos dias viu que não tinha nada com aquilo e acabou decidindo voltar para casa. Quem sabe se o material que tinha juntado naqueles poucos meses de acampado não seria suficiente para escrever o livro?
Só então se deu conta, ao chegar em casa, que tinha esquecido de cancelar a assinatura do jornal, e o porteiro, como bom homem que era, tinha-os guardado para quando “seu” Mauricio voltasse .
Trouxe-os para casa ainda sem saber o que fazer com aquela montanha de papel a lhe pesar na consciência. Ela era evidência da sua desatualização. Se pretendia voltar ao mercado de trabalho tinha que se inteirar do que havia passado no mundo na sua ausência.
A primeira idéia, portanto, era ler tudo aquilo.
Com o passar dos dias, no entanto,foi descobrindo que esta não seria uma tarefa fácil. Eram muitos dados, fatos, conchavos, crimes, guerras e escândalos a serem assimilados e era preciso entender o encadeamento dos mesmos. Tinha que ler os jornais na ordem certa, e os novos números continuavam a chegar todos os dias.
Aos poucos o apartamento virou uma bagunça, com jornal pra tudo quanto é lado. Uma pilha tinha se formado com jornais por serem lido, mas aqueles que já tinham sido permaneciam por ali, pois sempre havia a possibilidade de ter deixado escapar alguma coisa. A desordem começava a reinar à medida que ele fazia progressos e os jornais, antes inofensivas criaturas de papel e tinta, pareciam agora adquirir vida ao se enrolarem em suas pernas quando ele caminhava entre eles.
Sem que ele percebesse, os jornais começavam a dominá-lo.
Dias e noites esteve às voltas com eles, esquecidos dos amigos, das mulheres, de Helena, da vida lá fora; os jornais antigos mais importantes que os novos, os lidos a lhe espreitarem para uma nova leitura, a absoluta absorção da sua atenção tentando coordenar tudo aquilo que se tinha pressa por apreender; os números novos batendo à porta e envelhecendo como os demais, para seu desespero que não conseguia retardar a marcha do tempo.
Ao cabo de dois meses sua barba havia crescido, tinha emagrecido 10 quilos e já não saía de casa nem para comprar comida.
Soterrado sob uma montanha de papel não se sentia melhor do que no começo. A tão acalentada idéia de se pôr ao corrente dos fatos parecia, ao contrário, tê-lo afastado da realidade, ameaçando sua sanidade. Preso nesta contradição só a ousadia de um ato de loucura poderia livrá-lo dessa situação.
No limiar desse caminho sem volta, a vida falou mais alto.
Num rompante, deu seu grito de liberdade. Com gestos bruscos e desajeitados, começou a catar os volumes espalhados, levantando nuvens de poeira que quase o sufocavam. Se parava, então, era apenas para retomar o fôlego, pois não podia dar chance que a dúvida enfraquecesse sua decisão. Os jornais poderiam reassumir o controle.
Aos poucos juntou uma enorme pilha de papeis amarrotados num canto da sala e teria posto fogo neles ali mesmo se não fosse um resto de bom senso a detê-lo antes deste ato final de loucura.
Pediu ajuda ao porteiro para carregar elevador abaixo aquele tralha. O pobre homem quase não o reconheceu naquela ato de semi-demência, mas obedeceu sem pestanejar. A disciplina de homem do povo o impedia de questionar.
Fizeram duas viagens elevador abaixo, carregando os volumes dos jornais agora resignados a sua condição de criatura sem vida, enquanto Maurício, esfuzeante, corria como uma criança que tivesse ganhado um brinquedo novo: sua liberdade!
“Os jornais que se fodam” – pensava sentindo-se mais senhor de si. E uma certeza louca lhe soprava que ele tinha feito a escolha certa, ainda que aquilo contrariasse a sua natureza.
“A minha natureza que se foda” pensava imediatamente, desviando o pensamento da vertigem que sentia ao dar as costas ao mundo do conhecimento.
“O mundo do conhecimento que se foda” arrematava de uma vez Maurício, desesperadamente convicto de sua resolução, deixando às vezes escapar exclamações e risadas baixas, para espanto do zelador que o ajudava sem entender o que estava acontecendo.
Ao fim o apartamento vazio era de uma desolação só. Ao retornar, Maurício, percebeu isso e sentiu que não podia ficar ali nem mais um minuto que mais parecia uma tumba que um lugar para se viver. Precisava sair, reconquistar a vida que os jornais tinham-lhe tirado nesses dois meses. Ir às ruas, ao encontro das pessoas que ele tinha ignorado em nome do que mesmo?
Nem ele mais sabia.
Mas de uma coisa estava certo: precisava celebrar, comer uma bela refeição, encher a cara, sentir-se homem outra vez, procurar Helena quem sabe, mas sobretudo viver, viver a louca vida que não exige razão nem condição para ser vivida.
Fim!
Thursday, August 27, 2009
Uma frase...
Ou será um daqueles micro-contos que hoje pegou a moda. Não me gusta muito a idéia. Às vezes, contudo, uma idéia nasce para uma forma. Não adianta querer tirar mais dela, porque ela nasceu assim. Às vezes é prum romance, às vezes prum conto, às vezes prum... micro-conto, vamos dizer desse modo. Afinal, nada de torcer o nariz para formas novas. Isso é coisa de velhote conservador. É ridículo o que já aconteceu na história a esse respeito, e eu não quero me enquadrar na categoria. Então, lá vai.
I hope you like!
Un abraccio!
MATURIDADE
Quando a noite torna-se uma criança, um homem torna-se um homem.
I hope you like!
Un abraccio!
MATURIDADE
Quando a noite torna-se uma criança, um homem torna-se um homem.
Tuesday, August 25, 2009
Novo
Voltando a escrever.
Já havia dito isso da outra vez.
Mas agora, mais prosa do que poesia.
Me gusta màs!
Sou um filho ingrato da poesia. Fui adotado por ela, mas sempre almejei escrever mais prosa: crônicas, ensaios, contos, romances. Agora que as coisas estão serenando em minha vida, vou tentar recuperar o elan criativo que tive há alguns anos. Elan interrompido por causa da faculdade, depois pelo novo emprego, pela separação, enfim... Com isso o anos passam e quando a gente se dá por conta lá foram 10 anos.
Mas chega de papo que o lance aqui é mostrar serviço. Então lá vai minha nova criação.
Espero que apreciem.
TOQUEMOS JUNTOS
Me comporto como se tudo fosse música. Ajo governado por meu ritmo interior.
Ocorre que este ritmo nem sempre concorda com o ritmo do mundo e, então, saio de compasso. Tenho que sintonizar novamente o ritmo das coisas e esquecer por um momento a minha frequência interior. O que é sempre um processo doloroso e estressante, pois quando isso acontece tenho de fazer um esforço, afinar o ouvido novamente para ouvir a música que o Universo está tocando.
Sim, o Universo. Pois creio que a expressão a “harmonia das esferas”, usada por Newton, não seja apenas uma metáfora para expressar a perfeição da gravitação universal da órbita dos planetas, mas a expressão para a ordem subjacente de todas as coisas: a música.
E música é ritmo. E ritmo é matemática.
Pitágoras já dizia quase o mesmo: que os números governavam o mundo.
Enfim, para eu, que não sou muito afeito aos números, o mundo é mesmo governado pela música.
Há uma música universal tocando e só as sensibilidades mais aguçadas são capazes de a captar, sendo a música como a conhecemos, apenas uma expressão singular dessa música universal. Pois há música no ato de criar, seja ele qual for; há música no trabalho, quando gostamos do que fazemos; há música no amor, quando estamos apaixonados; há música nas nossas vidas, quando estamos com saúde e ganhamos o suficiente para pagar as contas, investir e economizar. Há música quando conseguimos “reger” todos essas facetas do nosso ser, de tal forma que todos eles trabalhem em harmonia: a saúde, o amor, as finanças, a realização profissional.Quando um deles desafina, desafinamos como um todo e como, na música, um desafino é sempre desagradável ao ouvido.
Os povos primitivos viviam em harmonia com a natureza. Seus ciclos de nascimento, crescimento e morte. A civilização afastou o homem do seu meio e ficou mais difícil para ele apreender o ritmo natural.
Há muitas dissonâncias hoje que são fonte de doenças, desajustamentos, exclusão e violência. O homem não vive mais em harmonia com o seu meio. Se despersonaliza, não se reconhece naquilo que faz. O trabalho lhe obriga a cumprir horário, a fazer coisas que não tem vontade. Não é por acaso que o índio morria quando escravizado. Tirado do seu meio era obrigado a empregar a sua força de trabalho para gerar a riqueza de poucos. O que ele não entendia. Na natureza tinha tudo do que precisava e só agia quando realmente necessário.
O trabalho - e mais ainda a sua falta, pois o meio lhe impõe isso - é a maior fonte de stress do homem moderno, pois o obriga a um ritmo que não é o seu.
Na medida do possível tem de haver uma adequação. O homem tem de o ajustar ao seu ritmo interior. Quer dizer, escolher aquele que mais se adequa a si. O que é um privilégio para poucos que podem preparar-se adequadamente para o exercício de uma profissão realmente satisfatória. Não apenas como um meio de subsistência, mas também como fonte de realização. A sensação que se está cumprindo com aquilo para que se nasceu.
Mas estamos chegando lá. A civilização pós-industrial começa a ser dar conta de que o homem tem de ser o centro das suas preocupações. Garantir o seu bem estar, a satisfação com o seu trabalho e a sua saúde. Só assim haverá produção de qualidade, pelo menos naqueles setores em que o produto é esforço da inteligência, da sensibilidade e da criatividade. Às máquinas deixamos o trabalho duro e burro. Máquinas que, uma vez pensava-se, iam substituir o homem. Sim, substituíram, mas só naqueles trabalhos que não exigem criatividade e inteligência. Cada vez mais o homem pode se liberar para essas tarefas. E para essas, tem de estar bem consigo e com seu meio. Em harmonia.
Algo que, nos dias atuais, todo mundo começa a buscar, na medida em que está ficando cada vez mais claro que a saúde não é só uma condição orgânica, mas também fruto de um estado psíquico e emocional equilibrado. O que só se consegue quando se escuta a música interior de cada um e ela vibra na mesma freqüência com o seu meio.
Sócrates dizia: conhece-te a ti mesmo. Poderíamos complementar este provérbio com: escuta-te a ti mesmo! Busca sintonizar o teu ritmo interior com o ritmo do Universo, pois quando eles vibram juntos, tudo flui melhor. O que de certa forma define o conceito de sinfonia. Do grego sym- reunião, com – phonia – sons, vozes. Reunião de sons e vozes.
Toquemos juntos, então!
Já havia dito isso da outra vez.
Mas agora, mais prosa do que poesia.
Me gusta màs!
Sou um filho ingrato da poesia. Fui adotado por ela, mas sempre almejei escrever mais prosa: crônicas, ensaios, contos, romances. Agora que as coisas estão serenando em minha vida, vou tentar recuperar o elan criativo que tive há alguns anos. Elan interrompido por causa da faculdade, depois pelo novo emprego, pela separação, enfim... Com isso o anos passam e quando a gente se dá por conta lá foram 10 anos.
Mas chega de papo que o lance aqui é mostrar serviço. Então lá vai minha nova criação.
Espero que apreciem.
TOQUEMOS JUNTOS
Me comporto como se tudo fosse música. Ajo governado por meu ritmo interior.
Ocorre que este ritmo nem sempre concorda com o ritmo do mundo e, então, saio de compasso. Tenho que sintonizar novamente o ritmo das coisas e esquecer por um momento a minha frequência interior. O que é sempre um processo doloroso e estressante, pois quando isso acontece tenho de fazer um esforço, afinar o ouvido novamente para ouvir a música que o Universo está tocando.
Sim, o Universo. Pois creio que a expressão a “harmonia das esferas”, usada por Newton, não seja apenas uma metáfora para expressar a perfeição da gravitação universal da órbita dos planetas, mas a expressão para a ordem subjacente de todas as coisas: a música.
E música é ritmo. E ritmo é matemática.
Pitágoras já dizia quase o mesmo: que os números governavam o mundo.
Enfim, para eu, que não sou muito afeito aos números, o mundo é mesmo governado pela música.
Há uma música universal tocando e só as sensibilidades mais aguçadas são capazes de a captar, sendo a música como a conhecemos, apenas uma expressão singular dessa música universal. Pois há música no ato de criar, seja ele qual for; há música no trabalho, quando gostamos do que fazemos; há música no amor, quando estamos apaixonados; há música nas nossas vidas, quando estamos com saúde e ganhamos o suficiente para pagar as contas, investir e economizar. Há música quando conseguimos “reger” todos essas facetas do nosso ser, de tal forma que todos eles trabalhem em harmonia: a saúde, o amor, as finanças, a realização profissional.Quando um deles desafina, desafinamos como um todo e como, na música, um desafino é sempre desagradável ao ouvido.
Os povos primitivos viviam em harmonia com a natureza. Seus ciclos de nascimento, crescimento e morte. A civilização afastou o homem do seu meio e ficou mais difícil para ele apreender o ritmo natural.
Há muitas dissonâncias hoje que são fonte de doenças, desajustamentos, exclusão e violência. O homem não vive mais em harmonia com o seu meio. Se despersonaliza, não se reconhece naquilo que faz. O trabalho lhe obriga a cumprir horário, a fazer coisas que não tem vontade. Não é por acaso que o índio morria quando escravizado. Tirado do seu meio era obrigado a empregar a sua força de trabalho para gerar a riqueza de poucos. O que ele não entendia. Na natureza tinha tudo do que precisava e só agia quando realmente necessário.
O trabalho - e mais ainda a sua falta, pois o meio lhe impõe isso - é a maior fonte de stress do homem moderno, pois o obriga a um ritmo que não é o seu.
Na medida do possível tem de haver uma adequação. O homem tem de o ajustar ao seu ritmo interior. Quer dizer, escolher aquele que mais se adequa a si. O que é um privilégio para poucos que podem preparar-se adequadamente para o exercício de uma profissão realmente satisfatória. Não apenas como um meio de subsistência, mas também como fonte de realização. A sensação que se está cumprindo com aquilo para que se nasceu.
Mas estamos chegando lá. A civilização pós-industrial começa a ser dar conta de que o homem tem de ser o centro das suas preocupações. Garantir o seu bem estar, a satisfação com o seu trabalho e a sua saúde. Só assim haverá produção de qualidade, pelo menos naqueles setores em que o produto é esforço da inteligência, da sensibilidade e da criatividade. Às máquinas deixamos o trabalho duro e burro. Máquinas que, uma vez pensava-se, iam substituir o homem. Sim, substituíram, mas só naqueles trabalhos que não exigem criatividade e inteligência. Cada vez mais o homem pode se liberar para essas tarefas. E para essas, tem de estar bem consigo e com seu meio. Em harmonia.
Algo que, nos dias atuais, todo mundo começa a buscar, na medida em que está ficando cada vez mais claro que a saúde não é só uma condição orgânica, mas também fruto de um estado psíquico e emocional equilibrado. O que só se consegue quando se escuta a música interior de cada um e ela vibra na mesma freqüência com o seu meio.
Sócrates dizia: conhece-te a ti mesmo. Poderíamos complementar este provérbio com: escuta-te a ti mesmo! Busca sintonizar o teu ritmo interior com o ritmo do Universo, pois quando eles vibram juntos, tudo flui melhor. O que de certa forma define o conceito de sinfonia. Do grego sym- reunião, com – phonia – sons, vozes. Reunião de sons e vozes.
Toquemos juntos, então!
Saturday, August 15, 2009
DE REPENTE
Voltando a produzir. O que é muito bom. Parece que as coisas vão se estabilizando na minha vida, o que vai me dando a necessária tranquilidade para voltar a escrever. Aí vai um dos últimos poemas produzidos recentemente. Nasceu como prosa, mas depois vi que dava samba, quero dizer, poema.
Boa leitura!
DE REPENTE
De repente a vida se torna complexa demais.
Queríamos apenas um bom emprego
ganhar bem
garantir a subsistência
curtir a vida.
Mas
de repente
nos vemos envolvidos com a criação dos filhos
o financiamento da casa
a faculdade por concluir
e as dívidas que se acumulam.
O dinheiro que era muito
torna-se pouco.
O que gera mais dívida
que gera mais trabalho
que gera mais cansaço
que gera mais insatisfação
sem que saibamos
como tudo começou.
De repente os anos se passam
e quando podemos realizar os projetos adiados
descobrimos que já não despertam mais
interesse.
Ficamos velhos
de repente
e de repente
já não sabemos mais
se haverá tempo
para recuperar o tempo
perdido.
Boa leitura!
DE REPENTE
De repente a vida se torna complexa demais.
Queríamos apenas um bom emprego
ganhar bem
garantir a subsistência
curtir a vida.
Mas
de repente
nos vemos envolvidos com a criação dos filhos
o financiamento da casa
a faculdade por concluir
e as dívidas que se acumulam.
O dinheiro que era muito
torna-se pouco.
O que gera mais dívida
que gera mais trabalho
que gera mais cansaço
que gera mais insatisfação
sem que saibamos
como tudo começou.
De repente os anos se passam
e quando podemos realizar os projetos adiados
descobrimos que já não despertam mais
interesse.
Ficamos velhos
de repente
e de repente
já não sabemos mais
se haverá tempo
para recuperar o tempo
perdido.
Sunday, August 09, 2009
Ensaio
Um pequeno ensaio. Talvez seja isso. Ia chamar de crônica, mas acho que não se encaixa bem no gênero.
Bem, independente do que seja, o importante é escrever.
Lembram daquela imagem: o jogador à beira do campo, se aquescendo para entrar no jogo. Já falei aqui e em outras oportunidades: é como me sinto em relação à escrita. Alguém se aquescendo para entrar no jogo de verdade.
É nesse sentido então que vai o texto abaixo.
PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS
O homem durante muito tempo exigiu provas da existência de Deus, e os céticos dizem não serem capazes de crer porque não O entendem. Esquecem que muitas coisas também não entendem, nem por isso deixam de acreditar nelas. A natureza, por exemplo.
Contudo, a ciência, há mais de 500 anos, se propôs a explicá-la e foi jus-tamente por isso que se rebaixou o status do sobrenatural. O homem anteviu a pos-sibilidade de viver sem Deus, colocando em seu lugar outra forma de explicar o mundo. Seria apenas uma questão de tempo decifrar todos os seus enigmas, e hoje as pesquisas avançam DNA adentro, átomo e através do Universo. Mas ainda há muitos mistérios a serem respondidos. Qual a origem da vida? O que é afinal a ma-téria? Estamos sós no Universo?
Essas são questões que permanecem ainda sem respostas. O que não im-pede que o homem, municiado de todo aparato tecnológico existente, continue a procurá-las.
Como resultado desse esforço o homem acumulou, através da história, uma quantidade enorme de informação e conhecimento. O que tem forçado as no-vas gerações a buscar a especialização como forma de se destacar na sua área de atuação. Já há muito, foram-se os tempos em que o homem podia aspirar ao ideal faustiano: dominar todas as artes e ciências. Nesse sentido, é inconcebível, hoje, qualquer pesquisa de ponta sem a especialização e o trabalho em equipe, pois já não é mais possível apenas um cérebro dominar toda a informação disponível.
Assim, aquela exigência inicial do cético, de entender para crer, já não faz mais sentido nos dias atuais, pois não se diz para ele que a sua interrogação não tem resposta, apenas que é impossível dominar todo o conhecimento que está por trás das novas tecnologias. Não é por não entender como funciona o telefone celular que não vamos usá-lo. O mesmo podemos dizer das demais tecnologias como os automóveis, as mídias reprodutoras de som e imagem, mas, sobretudo, do computa-dor. Este último, então, tem aberto um mundo de possibilidades que deixa qualquer cético em xeque.
O que fazer se não crer no técnico de informática quando nos diz os co-mandos que devemos dar para um programa funcionar? Alguém ainda se atreveria a perguntar “por quê” quando se sabe que os sistemas operacionais nada mais são do que plataformas rodando uns sobre os outros, sendo o último apenas uma interface mais amigável? Ninguém se pergunta que complexos sistemas eletrônicos está acio-nando quando dá partida no carro. Queremos apenas que o carro nos transporte em segurança até nosso destino, assim como o celular tenha sinal para satisfazer a nossa necessidade. Quando não funciona, sempre haverá um técnico especializado a quem consultar. É como se hoje, ao irmos ao mecânico ou ao técnico de informática, fôssemos, nos tempos de Sócrates, ao oráculo para saber as respostas.
A questão não é mais que não há respostas. A questão é que não podemos saber tudo.
É nesse sentido, então, que eu me refiro: diante da enormidade de infor-mação disponível no mundo, hoje, está se abrindo um novo espaço para o sobrenatu-ral, pois a par de o homem ainda não ter conseguido responder as questões essenci-ais com todo este saber, este saber tornou-se ele mesmo um mundo à parte. Mundo este descolado daquelas questões iniciais que o originaram. À força de se chegar até elas o homem perdeu-se no caminho e hoje dá-se por satisfeito com os benefícios indiretos auferidos: as aplicações práticas deste saber. Aplicações estas que melho-raram sem dúvida o nível de vida das pessoas, mas que ainda continuam a lhes dei-xar sem respostas.
É nesta brecha – entre a promessa e cumprido da ciência - que as crenças voltam a se inserir, recuperando o status perdido, pondo à disposição do homem outras formas de apreender o real e a prática dos ritos equivalentes.
E neste terreno cabe ao neófito um pouco de cautela. Recuperar práticas e ritos aprovados e comprovados através da história, sob a guarda de instituições que através dos milênios lidam com estas questões, separando o joio do trigo. Como a igreja, por exemplo. Afinal, não seria esta a oportunidade adequada para ressuscitar o conceito do velho e bom Deus, depois que a História declarou a sua morte?
Bem, independente do que seja, o importante é escrever.
Lembram daquela imagem: o jogador à beira do campo, se aquescendo para entrar no jogo. Já falei aqui e em outras oportunidades: é como me sinto em relação à escrita. Alguém se aquescendo para entrar no jogo de verdade.
É nesse sentido então que vai o texto abaixo.
PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS
O homem durante muito tempo exigiu provas da existência de Deus, e os céticos dizem não serem capazes de crer porque não O entendem. Esquecem que muitas coisas também não entendem, nem por isso deixam de acreditar nelas. A natureza, por exemplo.
Contudo, a ciência, há mais de 500 anos, se propôs a explicá-la e foi jus-tamente por isso que se rebaixou o status do sobrenatural. O homem anteviu a pos-sibilidade de viver sem Deus, colocando em seu lugar outra forma de explicar o mundo. Seria apenas uma questão de tempo decifrar todos os seus enigmas, e hoje as pesquisas avançam DNA adentro, átomo e através do Universo. Mas ainda há muitos mistérios a serem respondidos. Qual a origem da vida? O que é afinal a ma-téria? Estamos sós no Universo?
Essas são questões que permanecem ainda sem respostas. O que não im-pede que o homem, municiado de todo aparato tecnológico existente, continue a procurá-las.
Como resultado desse esforço o homem acumulou, através da história, uma quantidade enorme de informação e conhecimento. O que tem forçado as no-vas gerações a buscar a especialização como forma de se destacar na sua área de atuação. Já há muito, foram-se os tempos em que o homem podia aspirar ao ideal faustiano: dominar todas as artes e ciências. Nesse sentido, é inconcebível, hoje, qualquer pesquisa de ponta sem a especialização e o trabalho em equipe, pois já não é mais possível apenas um cérebro dominar toda a informação disponível.
Assim, aquela exigência inicial do cético, de entender para crer, já não faz mais sentido nos dias atuais, pois não se diz para ele que a sua interrogação não tem resposta, apenas que é impossível dominar todo o conhecimento que está por trás das novas tecnologias. Não é por não entender como funciona o telefone celular que não vamos usá-lo. O mesmo podemos dizer das demais tecnologias como os automóveis, as mídias reprodutoras de som e imagem, mas, sobretudo, do computa-dor. Este último, então, tem aberto um mundo de possibilidades que deixa qualquer cético em xeque.
O que fazer se não crer no técnico de informática quando nos diz os co-mandos que devemos dar para um programa funcionar? Alguém ainda se atreveria a perguntar “por quê” quando se sabe que os sistemas operacionais nada mais são do que plataformas rodando uns sobre os outros, sendo o último apenas uma interface mais amigável? Ninguém se pergunta que complexos sistemas eletrônicos está acio-nando quando dá partida no carro. Queremos apenas que o carro nos transporte em segurança até nosso destino, assim como o celular tenha sinal para satisfazer a nossa necessidade. Quando não funciona, sempre haverá um técnico especializado a quem consultar. É como se hoje, ao irmos ao mecânico ou ao técnico de informática, fôssemos, nos tempos de Sócrates, ao oráculo para saber as respostas.
A questão não é mais que não há respostas. A questão é que não podemos saber tudo.
É nesse sentido, então, que eu me refiro: diante da enormidade de infor-mação disponível no mundo, hoje, está se abrindo um novo espaço para o sobrenatu-ral, pois a par de o homem ainda não ter conseguido responder as questões essenci-ais com todo este saber, este saber tornou-se ele mesmo um mundo à parte. Mundo este descolado daquelas questões iniciais que o originaram. À força de se chegar até elas o homem perdeu-se no caminho e hoje dá-se por satisfeito com os benefícios indiretos auferidos: as aplicações práticas deste saber. Aplicações estas que melho-raram sem dúvida o nível de vida das pessoas, mas que ainda continuam a lhes dei-xar sem respostas.
É nesta brecha – entre a promessa e cumprido da ciência - que as crenças voltam a se inserir, recuperando o status perdido, pondo à disposição do homem outras formas de apreender o real e a prática dos ritos equivalentes.
E neste terreno cabe ao neófito um pouco de cautela. Recuperar práticas e ritos aprovados e comprovados através da história, sob a guarda de instituições que através dos milênios lidam com estas questões, separando o joio do trigo. Como a igreja, por exemplo. Afinal, não seria esta a oportunidade adequada para ressuscitar o conceito do velho e bom Deus, depois que a História declarou a sua morte?
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